Inadimplência no crédito rural bate recorde de 9,7%, e juros que quase dobraram explicam a alta, diz Cepea
Estudo do Cepea/Esalq-USP mostra que a dívida do produtor não cresceu acima da renda, mas ficou mais cara: atraso chega a 17,6% nas linhas a juros de mercado e passa de 15% no Tocantins e no Maranhão

- Antes de fechar o custeio da safra 2026/27, compare a taxa da linha a juros de mercado com as linhas de juros controlados: no estudo, o atraso é de 17,6% nas primeiras e de 3,8% nas segundas
- Quem tem parcela em atraso por perda de safra deve olhar o prazo da renegociação pela MP 1.376, que vai até 12 de novembro
- No Tocantins e no Maranhão, com atraso acima de 15%, vale chegar à renovação com cadastro, garantias e plano de pagamento em dia
A inadimplência no crédito rural de pessoas físicas chegou a 9,7% do saldo em agosto de 2026, o maior nível da série do Banco Central, segundo um texto para discussão do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) noticiado nesta terça-feira (20) pelo Canal Rural, pelo SpaceMoney e pelo Portal do Agronegócio. Em dezembro de 2022, o índice era de 0,8%.
O estudo, assinado pelos pesquisadores Lucilio Alves e Geraldo Barros, aponta que o problema não está no tamanho da dívida. Segundo o Cepea, o estoque de crédito equivalia a 94% da renda agropecuária em 2025, dentro da faixa observada entre 2013 e 2019.
agro.page · grátisSeu agro.page grátis em 2 minutosWhatsApp, Pix, catálogo e a cotação do dia num link só. Coloque na bio e venda mais.Criar meu agro.page grátis →O que mudou, de acordo com os autores, foi o preço do dinheiro. A taxa média dos financiamentos rurais a pessoas físicas passou de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% em 2025, e a despesa anual com juros saiu de cerca de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, segundo o Cepea.
Inadimplência no crédito rural se concentra nas linhas a juros de mercado
O Cepea mostra que as operações a taxas de mercado, ligadas à Selic e a fontes como a LCA, respondiam por cerca de 43% do saldo, mas por cerca de 77% do valor em atraso. Nessas linhas, a inadimplência chega a 17,6%, contra 3,8% nas operações com juros controlados.
A chamada carteira problemática, que soma atrasos, prorrogações e renegociações, chegou a R$ 205 bilhões, ou 23,8% do crédito rural registrado no Sicor. Quase três quartos desse valor são contratos renegociados ou prorrogados, que não aparecem na taxa de inadimplência.
Onde o atraso é maior
Por estado, o estudo aponta Tocantins e Maranhão com inadimplência acima de 15%. Goiás aparece com 8,8%, Mato Grosso do Sul com 7,4% e Mato Grosso com 6,3%.
O Rio Grande do Sul tem taxa de 3,2%, abaixo da média, mas concentra 21% da carteira problemática do país, segundo o estudo.
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Para dimensionar o peso dos juros, use o custeio do milho 2026/27 em Mato Grosso, estimado pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) em cerca de R$ 3.780 por hectare.
Financiado por um ano a 6,3%, esse custeio gera perto de R$ 238 de juros por hectare. A 12,2%, a conta sobe para cerca de R$ 461 por hectare: uma diferença de R$ 223 por hectare. Numa lavoura de 500 hectares, são aproximadamente R$ 111 mil a mais por safra, só de juros.
O que observar
A inadimplência recorde aparece no mesmo momento em que corre o prazo de renegociação de dívidas pela MP 1.376 e em que estados como o Tocantins criam programas próprios. A evolução da Selic e a oferta de linhas com juros controlados no restante do Plano Safra 2026/27 são os pontos que devem definir se o atraso começa a recuar.
Entenda o contexto
- Dívida rural pela MP 1.376 tem 25 dias para renegociar e só R$ 5,3 bi contratados
- Recuperação judicial no agro cai 20,7% no 2º trimestre, mas pedidos de produtores pessoa física sobem 8% sobre o início do ano
- Tocantins decreta emergência por seca em todo o estado e abre caminho para renegociar dívida rural
Fontes
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